em busca do que se perdeu

 

 

Uma mulher possuía dez moedas. Atenta ao andamento de sua casa, um dia deu falta de uma destas preciosas moedas. Determinada, iniciou imediatamente a exploração de todos os cantos da casa. Acendeu a lamparina, afastou os móveis, varreu toda a casa, empreendendo cuidadosa procura. Só sossegou depois de encontrar o que havia perdido. Feliz com o resultado de sua busca reuniu as amigas e vizinhas dividindo com elas, sua imensa alegria. (Lucas 15:8-10.).

Ao ler a parábola da dracma perdida, além de sermos postos diante de um simples acontecimento doméstico, somos convidados à reflexão sobre aspectos ainda mais importantes da vivência familiar.

 

Uma louvável atitude feminina

Não podemos negar! Realmente há muitas provas de que existem umas qualidades que são mais presentes na mulher do que no homem:

As mulheres percebem primeiro a falta de algo na família.

Demonstram mais atenção no andamento da casa e à qualidade da vida familiar.

São elas que se movem primeiro em busca de soluções para os problemas e do suprimento das necessidades.

A maioria das mulheres se antecipa aos maridos no acompanhamento da vida e das necessidades da família e do casamento.

Não hesitam em procurar ajuda de pastores e conselheiros.

Parecem estar sempre interessadas em ampliar o bem-estar da família.

 

O que pode ser perdido dentro de casa

Na parábola de Jesus, a moeda perdida era uma dracma, antiga moeda de prata. Embora pequenina era de grande valor para uma família de poucos recursos. Talvez representasse o suficiente para alimentar uma família por um ou dois dias. Seu desaparecimento faria muita falta. Isto torna compreensível o esforço empreendido pela mulher que a procurava.

Existem recursos, que, quando desaparecem, mesmo em famílias socialmente bem supridas, provocam carências profundas. Algumas perdas podem afetar substancialmente a qualidade de vida de uma família. Por exemplo:

A perda do interesse e da atenção pelo outro, pode tornar a convivência familiar desagradável para seus integrantes comprometendo toda a família.

A perda do carinho e do toque, capazes de transmitir acolhimento e de confirmar o valor de cada um, abala a auto-estima pessoal, e adoece especialmente os mais frágeis.

A perda do prazer pela presença e companhia do outro, torna a convivência familiar desagradável e um peso.

A perda do temor de Deus, a mais preciosa fonte de recursos para a vida, traz obstruções e fraquezas para a família.

A perda do companheirismo afeta os vínculos que consolam a alma, as emoções.

A perda do diálogo, que transforma a convivência em barreiras intransponíveis no caminho da compreensão.

A perda do respeito, que destrói a dignidade do outro, degenerando a relação em abusos geralmente seguidos de um triste acúmulo de sofrimentos.

A perda da confiança e o tormento do ciúme, que destrói o amor, o casamento e a família.

A perda do interesse sexual, que transforma o casal em duas pessoas indiferentes, estranhas, fragilizadas, separadas da qualidade abençoada por Deus, em fazer dos dois uma só carne.

Mas o que se deve fazer diante da perda de algo precioso na vida familiar? As providências tomadas pela mulher da parábola são exemplos bastante úteis.

 

Devemos como ela, procurar o que foi perdido

As pessoas têm uma capacidade surpreendente de se acomodar de forma gradativa a situações desfavoráveis na vida. Alguns perdem completamente a noção do prejuízo que estão amargando, aceitando com resignação amargas condições de existência.

As perdas diluídas em suaves prestações diárias podem ser contabilizadas em proporções inimagináveis, depois de alguns anos. Há aqueles que minimizam suas perdas, dizendo: “é assim mesmo, isto acontece com todas as famílias”. Com esta atitude, rebaixam suas expectativas e não se dispõem a lutar para transformar sua condição.

Mas a mulher da parábola não se conformou com a perda de sua moeda. Embora tivesse outras nove, queria preservar tudo o que possuía. É preciso que nós também não nos acomodemos as riquezas perdidas. Fomos destinados a “comer o melhor desta terra”, e não as migalhas. O tempo de busca começa imediatamente depois dos primeiros sinais da falta, senão os riscos da acomodação se ampliam.

 

Devemos como ela, empreender uma busca diligente

Não basta olhar por cima e apressadamente achar que não vale a pena. Só uma atenção detida e interessada pode ajudar a localizar o que se perdeu, que muitas vezes está escondido onde menos se espera. A protagonista de nossa parábola revirou a casa, varreu todos os seus cantos, ciente de que ali era o lugar onde deveria empreender sua busca.

Muitos dos recursos que se perdem podem ser localizados se a busca for minuciosa e corajosa. Isto implica, por exemplo, consultar e ouvir todos os membros da família.

Um cônjuge deve se dispor a ouvir e acolher humildemente as observações do outro.

Os filhos devem ser convocados a dizer exatamente o que vêem, percebem e sentem, do lugar em que estão. A soma das contribuições individuais torna a empreitada coletiva mais próxima do sucesso.

Há pessoas que se apressam a buscar fora o que perderam dentro de casa. É preciso resistir à tentação de partir à procura de alternativas compensatórias no mundo de fora, quando a vida no ambiente familiar torna-se difícil. Muitos que, por esta via se enveredam, prendem-se em armadilhas que mais roubam do que dão satisfação.

Entretanto, esgotados os recursos internos, é sábio pedir ajuda a um conselheiro familiar experiente, a fim de entender melhor a situação e atuar de maneira mais eficiente, no complexo universo das relações familiares. Sugiro procurar ajuda dos líderes do Departamento de Casais, marcar um gabinete, abrir o coração, pedir ajuda.

 

Devemos como ela, acender a candeia

A mulher da parábola cuidou de acender uma candeia para aprimorar sua busca. Sem luz ficaria difícil localizar a pequena moeda. De modo semelhante, a localização das riquezas perdidas na convivência familiar requer esclarecimento.

Há coisas que permanecem escondidas, até serem iluminados com as informações e conhecimentos necessários. O acender a candeia pode ser a utilização de um novo recurso para a compreensão, como:

Literatura específica sobre o assunto.

Experiência de outros casais maduros.

Reconhecer os limites e partir em busca de novos recursos, demonstrando sinal de grandeza.

Buscar a cura das “doenças no relacionamento conjugal”, com clareza, não achando que você está certo e o outro errado, que a mudança tem que ser sempre no outro e não em você. A cura e o crescimento vêm como resultado desse interesse e só é alcançado pelos humildes como uma recompensa. É para os que admitem a falta de algo e, quando se vêem doentes, não se envergonham de buscar a cura.

Buscar a luz esclarecedora do Espírito Santo recebida pela oração. O Espírito Santo é, além de fiel companheiro, incansável guia dos que O buscam para encontrar novas verdades.

Buscar respostas, conforto e alimento na leitura diária da Palavra de Deus que ajuda a esclarecer situações e questões decisivas da vida familiar.

 

Devemos como ela, celebrar com a família e outras pessoas amigas a nossa vitória.

Nossa parábola termina em festa. Depois da aflição pela perda e do trabalho de busca é chegado o momento de celebração. A mulher reúne as amigas e vizinhas para dividir sua alegria e expressar a gratidão pelo sucesso de sua tarefa, pois o que estava perdido foi encontrado e a dor da falta foi substituída pela satisfação da conquista.

Celebrar é uma atitude que fortalece a experiência e sela a conquista, mas que ainda tem permanecido como um desafio para as famílias. Freqüentemente o negativo — na forma de queixas e críticas — ocupa mais espaço que o positivo.

Facilmente as conquistas podem desaparecer diante das faltas e, as lamentações, são contabilizadas com muito mais rigor. Isso nos lembra o que aconteceu com o primeiro casal, no Éden, quando a única árvore que lhe era proibida tornou-se mais importante e atraente que milhares de outras, inteiramente permitidas. Sem o olhar de gratidão, as imperfeições do outro serão sempre maiores que suas conquistas e o que ainda falta será sempre mais importante do que tudo que já se tem.

Há muito que celebrar no cotidiano familiar, basta ter olhos para ver. Pequenas e grandes conquistas enfileiram-se diariamente diante da família. É importante voltar a atenção para esta dimensão esquecida em meio a tantos empreendimentos ao mesmo tempo exigentes e desafiadores. A celebração pode trazer refrigério e tornar menos árida e mais encantadora a convivência que já pode ser experimentada.

O conselho de Jesus é: “Buscai e achareis”. Vale a pena empreender uma busca quando se tem a promessa do resultado positivo. A Palavra de Deus assegura que Ele mantém seus olhos atentos sobre todas as famílias da terra – “Abençoarei os que o abençoarem, e amaldiçoarei os que o amaldiçoarem; e por meio de você todos os povos da terra serão abençoados”. (Gênesis 12,3).

Deus se interessa inegavelmente pelo sucesso daquilo que planejou e quer preservar, por isso continua torcendo e agindo em favor disso. Considerando essa garantia, importa buscar o que porventura tenha se perdido ao longo do caminho e permanecer aberto aos novos e preciosos recursos que ainda não foram experimentados.
PB Samuel Lopes