A paciência ou a perseverança de Jó?

 

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A paciência ou a perseverança de Jó?

Esperar é uma virtude. Em um mundo de tantas pressões e correria, é raro encontrar pessoas que tenham a disciplina da espera, que consigam aguardar a sua vez, ouvir e até mesmo sofrer algum prejuízo em razão da espera. A grande maioria das pessoas não para. Elas entraram no ritmo desenfreado da pós-modernidade e não conseguem mais aguardar; esperam que tudo seja feito com rapidez e cobram agilidade dos outros ainda maior. A paciência é algo cada vez mais preciosa, e cada vez menos se ouve a conhecida frase: “aquela pessoa tem paciência de Jó”.

Jó é conhecido na Bíblia por causa do seu sofrimento. Não é fácil perder todos os seus filhos, sustento financeiro e saúde em uma mesma ocasião. Isso sem contar com a provocação da própria esposa que, em vez de chorar a morte dos filhos, ficou ‘’atazanando’ a vida do marido. Associar Jó ao sofrimento humano é algo coerente. Agora, dizer que Jó era paciente já é outra história. Aliás, saiu da boca do próprio Jó a expressão: “Qual é a minha força, para que eu aguarde? Qual é o meu fim, para que eu tenha paciência?” (6.11). Aparentemente Jó não se julgava o ‘senhor paciência’. Os capítulos 4 a 27 de seu livro trazem uma discussão vigorosa entre ele e seus amigos, e ali não são vistos muitos traços de uma pessoa paciente. A expressão que deu a Jó fama de paciente não está em seu livro, mas sim em Tiago 5.11. É bom notar, porém, que a palavra ‘paciência’ ali registrada foi substituída por ‘perseverança’ nas versões NVI ou NTLH. Até mesmo os estudiosos da Bíblia não acharam a palavra ‘paciência’ muito adequada para Jó.

Por mais que tento não consigo associar paciência a Jó. Seria mais fácil dizer que Moisés, Noé ou até Davi foram mais pacientes do que ele. É preciso ter verdadeira paciência para resistir a 40 anos de peregrinação com um povo reclamão, passar 40 dias dentro de um navio cheio de animais fedorentos ou resistir à perseguição do próprio filho sem perder a cabeça. Essas personagens teriam mais condição de serem chamadas de ‘homens pacientes’ do que o próprio Jó. Digo isso porque verificamos que, na narrativa do livro que leva seu nome, há uma série de perguntas, descontentamentos, dor e até mesmo impaciência da parte de Jó diante de tanto sofrimento. Jó não foi uma personagem pacata ou indiferente à dor: ele reagiu, chegando mesmo a questionar com profundidade sua situação.

Por que então associamos Jó à paciência? Possivelmente por causa da sua perseverança. Por algum motivo, temos uma interpretação equivocada do que é paciência. Achamos que alguém paciente é uma pessoa pacata, calada, que não exige seus direitos ou não reclama se alguém passa à sua frente na fila. Paciência é interpretada como pobreza de espírito, e particularmente já ouvi que pessoas pacientes não conseguirão subir muito na vida. Pensamento equivocado! Paciência não é isso. Pessoas verdadeiramente pacientes são aquelas que, em meio a provas, descontentamentos ou dor, têm uma disciplina de espera capaz de lhes dar resistência diante de situações que não merecem ação imediata. Paciência tem a ver com resistência e não propriamente com inatividade. Pessoas pacientes reivindicam seus direitos, ficam iradas e até mesmo podem reagir com determinada intensidade diante de uma situação grave. A questão é que, por serem pacientes, conseguirão dominar seu ímpeto e manter o controle. Essa é a essência da paciência: disciplina, domínio próprio, capacidade de esperar a hora certa. Por esse motivo, a palavra ‘perseverança’ cai melhor do que ‘paciência’ para Jó.

Jó teve uma longa e sofrida espera, mas, mesmo assim, até diante da sua própria indignação relacionada à providência divina, aguardou confiante. Sua motivação em esperar não se devia a uma paciência passiva, mas sim, a uma perseverança inabalável. Mesmo rodeado por sentimentos terríveis, por sensações destrutivas e por amigos não tão sábios em seus conselhos, Jó manifestou perseverança que, segundo o dicionário, é uma atitude de firmeza ou constância. Enquanto a paciência é vista como uma espera passiva, de quem observa os fatos e talvez até se deprima diante deles, a perseverança é uma espera cheia de convicção, de força, que nos mantém firmes apesar de ainda não conseguirmos visualizar um escape completo.

Todos nós passaremos por situações difíceis na vida. Diante delas podemos ficar passivos ou então nos enchermos de perseverança. O resultado de uma escolha ou outra pode ser visto no fim da vida de Jó. O último capítulo de seu livro relata logo no início que o resultado de sua escolha foi uma experiência com Deus como nunca tivera antes (Jó 42.1-5). Dizia agora que seu conhecimento de Deus não era apenas por ouvir falar. Não era aquele conhecimento que obtivemos porque alguém nos relatou, mas sim porque nós o vivenciamos. A perseverança de Jó produziu nele uma transformação interior que o levou a um estágio mais avançado de confiança. Jó saiu de uma experiência trágica melhor do que entrou. E isso se deveu à sua perseverança.

Prefiro olhar para Jó como sendo um homem perseverante e não apenas paciente. O patrimônio que o exemplo dele deixa para nós é valioso e deve ser repetido. Que sejamos sempre perseverantes, e que a disciplina da espera gere em nós não a tristeza ou cansaço, mas sim o ânimo de quem confia no Senhor e sabe que ao final de tudo estará mais forte do que no início.

Tenhamos a perseverança de Jó!

 

 

Autor: Guilherme Ávilla Gimenez
Texto extraído de: http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=123